Renda Variável

É hora de investir em ações no exterior?

Gustavo Aranha, sócio da GEO Capital, gestora com foco em ações de empresas globais, fala sobre as estratégias dos fundos.


Nunca se falou tanto em ações no país - isso é fato! Mas as companhias listadas no Brasil representam apenas 1% do valor de mercado de todas as empresas listadas em Bolsas no mundo. Portanto, há inúmeras alternativas de investimentos em ações de empresas no exterior que entram aos poucos no radar dos brasileiros, até então muito concentrados nos ativos domésticos.

Enquanto a taxa Selic mais baixa acendeu os holofotes sobre os investimentos além das fronteiras, agora o coronavírus traz incertezas, mas também oportunidades de compras. É o que diz Gustavo Aranha, sócio da GEO Capital, gestora de recursos independente focada exclusivamente em ações de empresas globais, que já tem R$ 1 bilhão de ativos sob gestão. 

 

Importância de investir em offshore

Em entrevista ao nosso Blog, ele falou sobre a importância da diversificação geográfica dos investimentos, as estratégias dos fundos da GEO Capital, a chegada da concorrência e as possíveis mudanças na regulamentação que define os investidores qualificados. Confira:

 

SB: A atual conjuntura favorece os investimentos no exterior? A Selic em menor patamar aumenta a procura de ativos fora do país? 

Gustavo Aranha: Acreditamos que a diversificação geográfica dos investimentos deveria ser estrutural, ou seja, não deveria variar muito, deixar de existir ou ser o grande tema dependendo da conjuntura específica do país. É claro que o maior interesse do público, dos alocadores, dos family offices, dos multi family offices e da imprensa para os investimentos internacionais vem com os juros baixos. O holofote está mais direcionado para o assunto agora que a Selic está mais baixa, mas eu acho que a conjuntura sempre favoreceu investimentos no exterior. Se pensarmos do ponto de vista de risco, houve momentos em que o Brasil representava maior risco e, por isso, pagava altos juros, portanto também fazia sentido ter alocações em outros países. 

 

SB: Recentemente, há turbulência no mercado financeiro e quedas nas Bolsas por causa do cononavírus. Qual é a sua avaliação sobre este cenário? 

Gustavo Aranha: Ainda há muitas incertezas sobre os impactos econômicos do coronavírus. Ficamos atentos a tudo o que está acontecendo, tentamos olhar quais as implicações que uma epidemia poderia causar nas operações das empresas que a gente cobre e também buscamos oportunidades para comprar essas companhias a preços muito baratos porque o mercado tende sempre a  ter reação exagerada nessas horas. Observamos cada operação, cada companhia, para tentar avaliar o impacto material para o seu valor no longo prazo, não para o resultado em dois ou três meses porque é claro que isso pode ter, mas consideramos um horizonte de cinco anos. Será que as redes de hotéis e as companhias de luxo valem, de fato, 10, 15, 20 ou 30 por cento menos do que valiam há um mês? É essa a questão. Por isso, nos últimos dias, desde que esse assunto começou a abalar mais fortemente o mercado, começamos a comprar alguns ativos que a gente já acompanha e que ficaram com preços atrativos. 

 

SB: Quem pode investir em um fundo com ativos no exterior? Quais as vantagens? 

Gustavo Aranha: A legislação local exige que, para investir em um fundo 100% alocado no exterior, tem que ser um investidor qualificado, o que significa que é preciso ter R$ 1 milhão em investimentos em geral. E as vantagens representam os dois lados da mesma moeda. Uma delas é ter uma carteira diversificada e balanceada. Porém, não é apenas uma proteção, temos uma visão de potencial de retorno. A economia brasileira representa só 3% do PIB mundial e as companhias listadas no Brasil somam apenas 1% do valor de mercado de todas as empresas listadas no mundo, assim, quem quer investir e ser acionista das melhores empresas têm maiores chances de ganhos ao considerar as empresas de fora, estatisticamente falando. É claro que tem excelentes companhias no Brasil, mas no exterior há grande quantidade de empresas com alto potencial de valorização. Eu nunca tiro do meu discurso a questão de trazer retorno de fora. 

 

SB: Quando foi fundada a GEO Capital e quais os diferenciais?

Gustavo Aranha: Foi fundada em 2013 e, desde o começo, o objetivo é ser a gestora parceira dos brasileiros nesse movimento de diversificação em ações. Somos a única gestora no país focada em investir recursos brasileiros em ativos não domésticos. Temos dois fundos de ações globais com a mesma estratégia, mas um é hedgeado para dólar e o outro não é, ou seja, um produto não tem variação cambial o outro tem. 

 

SB: Atualmente, quais são as empresas que se destacam no portfólio? São de que mercados?

Gustavo Aranha: As quatro empresas com maiores participações no portfólio são Disney, Deere & Company, Comcast Corporation e Constellation Brands. Na nossa carteira atual, temos 12 empresas, coincidentemente, americanas. No entanto, nossa equipe cobre 60 companhias, sendo dois terços dos Estados Unidos e um terço da Europa.

 

SB: Você poderia explicar o processo de investimentos da GEO? Como são os filtros para a escolha das companhias? 

Gustavo Aranha: Quando montamos a GEO, a gente quis ter esse universo de cobertura de 60 companhias, o que parece bastante, mas se considerarmos que no mundo existem cerca de 70 mil empresas listadas, contemplamos uma pequena parcela. Então, precisamos ser seletivos e nos baseamos em um filtro de qualidade. Qualquer empresa que está no nosso universo de cobertura como as quatro que eu falei (Disney, Deere & Company, Comcast Corporation e Constellation Brands), além da rede Marriott, American Express, Louis Vuitton, Tiffany & Co e Booking.com e as demais, tem um modelo de negócio muito forte e é referência em seu setor. Os critérios do nosso filtro são: poder de preço, potencial de crescimento e cultura de dono. Já para entrar na carteira do fundo, além de seguir esses requisitos, as ações têm que estar baratas. Estudamos os valores que as companhias terão daqui a cinco anos e quais são preços para as compras hoje. Se essa diferença fica grande, aí eu começo a investir. Como algumas das companhias perderam muito preço nos últimos dias e não mudamos a visão delas no longo prazo, ficaram mais atrativas para nós. 

 

SB: De forma geral, a dinâmica de distribuição dos fundos mudou nos últimos anos com o surgimento de inúmeras plataformas digitais de investimentos. Qual é a sua avaliação sobre isso?  

Gustavo Aranha: Quando a gente começou em 2013, não só não existiam tantas plataformas como não era possível ter um fundo local que investisse 100% no exterior. A gente teve que começar como um fundo offshore mesmo, isto é, os investidores precisavam ter dinheiro lá fora para investirem com a gente. Mas assim que legislação foi criada em 2015, começamos a montar os fundos para que os investidores com dinheiro aqui no Brasil conseguissem acessar as melhores companhias do mundo na nossa opinião. A gente entrou nas plataformas de investimentos em outubro de 2017, começamos com a XP e depois fomos abrindo relacionamento com várias outras. Hoje, estamos nas principais. Mas vale ressaltar que apenas recentemente o assunto passou a ser ativamente falado. As plataformas são importantes para a divulgação e consistem em um jeito simples e prático para os investidores acessarem os nossos fundos. 

 

SB: O total de ativos sob gestão (AUM) da GEO Capital tem crescido? Como está a captação dos fundos? A gestora trabalha com alguma meta? 

Gustavo Aranha: Sentimos o maior interesse das pessoas e tivemos crescimento forte nos últimos dois anos. Hoje, estamos com R$ 1 bilhão sob gestão. E não temos uma meta, um número a perseguir. O que posso dizer é que a GEO tem alta capacidade para gerir recursos porque lá fora a liquidez é muito grande, essa é uma das vantagens em relação ao mercado doméstico. A gente poderia crescer muitas vezes o nosso tamanho sem precisar mudar as empresas que cobrimos e sem ter que fechar o fundo porque ele ficou muito grande, o que acontece com muitas gestoras de fundos com ativos aqui no Brasil. Temos capacidade para atingir US$ 10 bilhões, segundo a última conta que fizemos.

 

SB: A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais) está elaborando uma proposta de nova regulação que será submetida à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre investidores qualificados. A ideia da Anbima é aperfeiçoar o suitability (análise de perfil do investidor) em vez de usar o critério de patrimônio para permitir o acesso a certas aplicações como ativos estrangeiros. Qual é a sua avaliação? 

Gustavo Aranha: Eu acho que carimbar o investidor mais rico como o mais experiente é uma medida fácil e muito errada. É fácil porque apenas vê quanto ele possui e, errada, pois obviamente o elevado patrimônio está longe de ser o melhor parâmetro para dizer se é ou não é preparado. Então, eu concordo com a linha que a Anbima está seguindo de usar o suitability mais profundo e preciso para que o perfil do investidor apareça de verdade. O Carlos Ambrósio, presidente da Anbima, também está olhando para os ativos internacionais de forma mais isenta, no sentido de não carimbar tudo o que não é Brasil como arriscado. Quando a legislação diz que investir fora do Brasil é exclusivamente para investidores qualificados, passa a mensagem subliminar de que é perigoso. E eu discordo porque as vantagens são a alta liquidez, a diversificação e a melhora da relação entre risco e retorno. Já tivemos reunião na CVM sobre esses temas e somos muito a favor dessa agenda que a Anbima está tentando emplacar. 

 

SB: A tendência é ter mais concorrentes no segmento de fundos globais no Brasil. Já vemos alguns grupos nacionais e estrangeiros se movimentando para oferecer novos produtos. Como você vê esse movimento?

Gustavo Aranha: Na minha opinião, o fato de só a GEO estar até hoje 100% focada em ações globais mostra o quanto essa agenda estava fora de moda. Mas sempre tivemos muita convicção nesse segmento e, como eu disse, agora o palco está aumentando e ficando mais iluminado, então cresce a chance de gestoras não brasileiras virem aqui e mostrarem seus fundos, estilos e processos de investimentos para os brasileiros. É uma disfunção a GEO ser a única, mas acho que está bem posicionada e que pode competir com qualquer outra do mundo. O movimento de mais gestoras vindo aqui é benéfico, traz maior visibilidade e aumenta o interesse das pessoas investirem globalmente. 

 

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